Muito obrigada
Fique à vontade para pedir um café. Talvez seja necessário algum líquido para que aquele “engolir seco” não seja tão dolorido, constrangedor e indigesto. Talvez você até se distraia com o amargo do espresso já quase frio enquanto cuspo palavras com causa e sem efeito. Pode ser que ao deitar, a insônia provocada pelo excesso de cafeína faça você se debater em dor antes de adormecer entregue ao cansaço dos seus pensamentos egoístas. Evidências de um crime que suas mãos sujas de sangue e esperma provam sua inocência. É tudo culpa minha.
Esse é o discurso mais breve que farei. Passei tempo demais com os ombros caídos, os olhos baixos, a alma em posição fetal desesperada como uma criança recém parida que ainda se assusta com os holofotes do mundo, o cheiro da poluição e o menor sinal de amor físico que não experimentara até então. Eu tinha cheiro de morte. Eu fui um fantasma na minha própria casa, no caminho até o trabalho, na coreografia descompassada da minha música preferida na boate. Eu arrastei pela vida. Eu gotejei desilusão. Eu transpirei decepção. Eu vomitei álcool, mágoa e solidão. O tempo não foi muito um aliado. E até a esperança desistiu de mim.
Então sai catando restos que sobrou do coração partido, dos sonhos pisoteados e da pouca dignidade que ainda me sobrava. Quando se chaga ao fundo do poço, não há mais o que cair. E aí vem o segundo tempo. Os calos nas mãos. A força nos braços e nenhuma outra opção senão erguer os olhos e subir as paredes de um caos úmido, escuro, redondo e muito, muito solitário. Não conte com ajudas de conhecidos. Não transfira sua missão. A sua única arma e ferramenta é você mesmo. É preciso coragem e até uma certa decência pra assumir a escalada de uma fossa. E como quem já não insiste em mais nada, ao poucos você percebe que, ao entregar-se, a missão chega ao fim.
Eu levantei. Tirei a poeira dos olhos. Descobri que a vida é muito mais bonita depois que chove. Que durmo melhor quando estou cansada. Que me divirto mais com a simplicidade. Que admiro muito mais a sinceridade não das palavras, mas dos sentimentos e das ações. E eu achando a vida ruim sem você, descobri que ruim era apenas a ideia de que um dia você esteve nela. Você nunca esteve. Nem estará. Você não me deixou uma ilusão. Deixou apenas uma realidade. E por isso, meu muito obrigada. Sou uma pessoa mais feliz depois da rasteira. É isso que me torna humana. A felicidade que você não me desejou naquela mal planejada e falida despedida é toda a que eu sinto agora.


