Muito obrigada Fique à vontade para pedir um café. Talvez seja necessário algum líquido para que aquele “engolir seco” não seja tão dolorido, constrangedor e indigesto. Talvez você até se distraia com o amargo do espresso já quase frio enquanto cuspo palavras com causa e sem efeito. Pode ser que ao deitar, a insônia provocada pelo excesso de cafeína faça você se debater em dor antes de adormecer entregue ao cansaço dos seus pensamentos egoístas. Evidências de um crime que suas mãos sujas de sangue e esperma provam sua inocência. É tudo culpa minha. Esse é o discurso mais breve que farei. Passei tempo demais com os ombros caídos, os olhos baixos, a alma em posição fetal desesperada como uma criança recém parida que ainda se assusta com os holofotes do mundo, o cheiro da poluição e o menor sinal de amor físico que não experimentara até então. Eu tinha cheiro de morte. Eu fui um fantasma na minha própria casa, no caminho até o trabalho, na coreografia descompassada da minha música preferida na boate. Eu arrastei pela vida. Eu gotejei desilusão. Eu transpirei decepção. Eu vomitei álcool, mágoa e solidão. O tempo não foi muito um aliado. E até a esperança desistiu de mim. Então sai catando restos que sobrou do coração partido, dos sonhos pisoteados e da pouca dignidade que ainda me sobrava. Quando se chaga ao fundo do poço, não há mais o que cair. E aí vem o segundo tempo. Os calos nas mãos. A força nos braços e nenhuma outra opção senão erguer os olhos e subir as paredes de um caos úmido, escuro, redondo e muito, muito solitário. Não conte com ajudas de conhecidos. Não transfira sua missão. A sua única arma e ferramenta é você mesmo. É preciso coragem e até uma certa decência pra assumir a escalada de uma fossa. E como quem já não insiste em mais nada, ao poucos você percebe que, ao entregar-se, a missão chega ao fim. Eu levantei. Tirei a poeira dos olhos. Descobri que a vida é muito mais bonita depois que chove. Que durmo melhor quando estou cansada. Que me divirto mais com a simplicidade. Que admiro muito mais a sinceridade não das palavras, mas dos sentimentos e das ações. E eu achando a vida ruim sem você, descobri que ruim era apenas a ideia de que um dia você esteve nela. Você nunca esteve. Nem estará. Você não me deixou uma ilusão. Deixou apenas uma realidade. E por isso, meu muito obrigada. Sou uma pessoa mais feliz depois da rasteira. É isso que me torna humana. A felicidade que você não me desejou naquela mal planejada e falida despedida é toda a que eu sinto agora. 

Muito obrigada

Fique à vontade para pedir um café. Talvez seja necessário algum líquido para que aquele “engolir seco” não seja tão dolorido, constrangedor e indigesto. Talvez você até se distraia com o amargo do espresso já quase frio enquanto cuspo palavras com causa e sem efeito. Pode ser que ao deitar, a insônia provocada pelo excesso de cafeína faça você se debater em dor antes de adormecer entregue ao cansaço dos seus pensamentos egoístas. Evidências de um crime que suas mãos sujas de sangue e esperma provam sua inocência. É tudo culpa minha.

Esse é o discurso mais breve que farei. Passei tempo demais com os ombros caídos, os olhos baixos, a alma em posição fetal desesperada como uma criança recém parida que ainda se assusta com os holofotes do mundo, o cheiro da poluição e o menor sinal de amor físico que não experimentara até então. Eu tinha cheiro de morte. Eu fui um fantasma na minha própria casa, no caminho até o trabalho, na coreografia descompassada da minha música preferida na boate. Eu arrastei pela vida. Eu gotejei desilusão. Eu transpirei decepção. Eu vomitei álcool, mágoa e solidão. O tempo não foi muito um aliado. E até a esperança desistiu de mim.

Então sai catando restos que sobrou do coração partido, dos sonhos pisoteados e da pouca dignidade que ainda me sobrava. Quando se chaga ao fundo do poço, não há mais o que cair. E aí vem o segundo tempo. Os calos nas mãos. A força nos braços e nenhuma outra opção senão erguer os olhos e subir as paredes de um caos úmido, escuro, redondo e muito, muito solitário. Não conte com ajudas de conhecidos. Não transfira sua missão. A sua única arma e ferramenta é você mesmo. É preciso coragem e até uma certa decência pra assumir a escalada de uma fossa. E como quem já não insiste em mais nada, ao poucos você percebe que, ao entregar-se, a missão chega ao fim.

Eu levantei. Tirei a poeira dos olhos. Descobri que a vida é muito mais bonita depois que chove. Que durmo melhor quando estou cansada. Que me divirto mais com a simplicidade. Que admiro muito mais a sinceridade não das palavras, mas dos sentimentos e das ações. E eu achando a vida ruim sem você, descobri que ruim era apenas a ideia de que um dia você esteve nela. Você nunca esteve. Nem estará. Você não me deixou uma ilusão. Deixou apenas uma realidade. E por isso, meu muito obrigada. Sou uma pessoa mais feliz depois da rasteira. É isso que me torna humana. A felicidade que você não me desejou naquela mal planejada e falida despedida é toda a que eu sinto agora. 

doctormonocle:

Victorian Wars Art Print by Terry Fan via Society6
Deixem o café em paz Café. Produto da soma de água quente + pó do grão moído e tostado + açúcar ou adoçante. Fim. É a coisa mais simples que tem na terra. Pode ser servido puro ou acompanhado de um pão francês quente que você compra na padaria que tem na esquina da sua casa, uma fatia de queijo fresco produzido pelo caseiro da fazenda do seu tio. Café tem que ser feito na hora. Tem que liberar cheiro. Tem que fazer sujeira na pia e deixar o coador encardido. Café tem que ser respeitado. Café é coisa de gente séria. Bebida de macho, não de mulherzinha.  Entendam uma coisa: café não é casa de massa que você escolhe o macarrão, o molho, o recheio e um queijinho ou cheiro verde picadinho em cima. Afrescalharam o café. O coitado anda tão cheio de mimimi que se eu disser que ele tá frio ou sem graça, é bem capaz dele chorar pro croissant de chocolate suíço ali do lado. Eu não consigo pedir um café sem ter que responder um questionário inteiro antes dele sair. É tanto nome, ingrediente, acompanhamento, formato, temperatura e enfeite que quando termino de fazer meu pedido, tenho medo de tomá-lo. Vai que sai de lá de dentro, em letras grandes e luminosas, um “Esse é o seu café de número100,000,000. Ligue agora para resgatar seu prêmio!?”  Não se serve mais café no copo americano. É pavoroso. Hoje, o correto é uma bela xícara de porcelana, com algum desenho bacana, um design descolado e talvez até seu nome gravado para que ninguém mexa com o café alheio. Isso pra não mencionar que, para cada tipo de café -determinado pelo número de ingrediente que você escolheu conforme o parágrafo de cima - uma xícara adequada é indispensável. Penso eu que cada pingado que eu tomo no copo de requeijão na minha casa, um panda na China morre com um bambu atravessado na jugular.  Café virou celebridade. É tanta foto de café que ele anda mais rodado que as fotos do acidente da  Princesa Diana. E claro, importantíssimo que a foto seja meio envelhecida e que o café esteja dentro da xícara bonita como já mencionei antes. Posso afirmar, inclusive, que em pouco tempo o café terá uma crise tão histérica de celebridade que será enviado para o Celebrity Rehab junto com a Rihana, que anda fazendo cosplay de Amy Winehouse. Eu vejo tanta imagem de café nas redes sociais que a única coisa que me consola é saber que estão tomando café frio porque perdem tempo tirando a porra da foto. Não esqueça de fazer check-in na cafeteria. E não esqueça de mencionar o livro que você está lendo enquanto degusta sua bebida. E claro, o mais importante, publique todas essas informações e fique contando quantos “curtir” você ganhará. Café combina com pão de queijo, não com óculos escuro. Café combina com hábito, não com processo criativo. Café combina com o peão da obra, não com o “look do dia”. Café combina com qualquer hora e qualquer clima, não com “nada melhor do que esse friozinho pra eu tomar um café”. Pelo amor de Deus, parem com isso. Beber café não é evento. Não está fácil. Eu fico indignada com o tanto de gente que precisa tomar café pra ser legal. Eu fico puta com o tanto de café alguém precisa tomar por dia para parecer mais interessante. Eu perco a vontade de viver com tanto barista e expert em café por aí. Nunca fui grande entendedora da bebida, mas meu avô sempre me ensinou a ter respeito e apreciar o bom e velho cafezinho na sua pura essência. E assim eu aprendi, desde 1988, a medida exata para se fazer um café simples e perfeito e o hábito de apenas tomá-lo enquanto quente e novo. Sem foto, sem frescura, sem fazer daquilo um evento. É só um café. Respeitem o direito que ele tem de ser humilde.

Deixem o café em paz

Café. Produto da soma de água quente + pó do grão moído e tostado + açúcar ou adoçante. Fim. É a coisa mais simples que tem na terra. Pode ser servido puro ou acompanhado de um pão francês quente que você compra na padaria que tem na esquina da sua casa, uma fatia de queijo fresco produzido pelo caseiro da fazenda do seu tio. Café tem que ser feito na hora. Tem que liberar cheiro. Tem que fazer sujeira na pia e deixar o coador encardido. Café tem que ser respeitado. Café é coisa de gente séria. Bebida de macho, não de mulherzinha. 

Entendam uma coisa: café não é casa de massa que você escolhe o macarrão, o molho, o recheio e um queijinho ou cheiro verde picadinho em cima. Afrescalharam o café. O coitado anda tão cheio de mimimi que se eu disser que ele tá frio ou sem graça, é bem capaz dele chorar pro croissant de chocolate suíço ali do lado. Eu não consigo pedir um café sem ter que responder um questionário inteiro antes dele sair. É tanto nome, ingrediente, acompanhamento, formato, temperatura e enfeite que quando termino de fazer meu pedido, tenho medo de tomá-lo. Vai que sai de lá de dentro, em letras grandes e luminosas, um “Esse é o seu café de número100,000,000. Ligue agora para resgatar seu prêmio!?” 

Não se serve mais café no copo americano. É pavoroso. Hoje, o correto é uma bela xícara de porcelana, com algum desenho bacana, um design descolado e talvez até seu nome gravado para que ninguém mexa com o café alheio. Isso pra não mencionar que, para cada tipo de café -determinado pelo número de ingrediente que você escolheu conforme o parágrafo de cima - uma xícara adequada é indispensável. Penso eu que cada pingado que eu tomo no copo de requeijão na minha casa, um panda na China morre com um bambu atravessado na jugular. 

Café virou celebridade. É tanta foto de café que ele anda mais rodado que as fotos do acidente da  Princesa Diana. E claro, importantíssimo que a foto seja meio envelhecida e que o café esteja dentro da xícara bonita como já mencionei antes. Posso afirmar, inclusive, que em pouco tempo o café terá uma crise tão histérica de celebridade que será enviado para o Celebrity Rehab junto com a Rihana, que anda fazendo cosplay de Amy Winehouse. Eu vejo tanta imagem de café nas redes sociais que a única coisa que me consola é saber que estão tomando café frio porque perdem tempo tirando a porra da foto. Não esqueça de fazer check-in na cafeteria. E não esqueça de mencionar o livro que você está lendo enquanto degusta sua bebida. E claro, o mais importante, publique todas essas informações e fique contando quantos “curtir” você ganhará.

Café combina com pão de queijo, não com óculos escuro. Café combina com hábito, não com processo criativo. Café combina com o peão da obra, não com o “look do dia”. Café combina com qualquer hora e qualquer clima, não com “nada melhor do que esse friozinho pra eu tomar um café”. Pelo amor de Deus, parem com isso. Beber café não é evento.

Não está fácil. Eu fico indignada com o tanto de gente que precisa tomar café pra ser legal. Eu fico puta com o tanto de café alguém precisa tomar por dia para parecer mais interessante. Eu perco a vontade de viver com tanto barista e expert em café por aí. Nunca fui grande entendedora da bebida, mas meu avô sempre me ensinou a ter respeito e apreciar o bom e velho cafezinho na sua pura essência. E assim eu aprendi, desde 1988, a medida exata para se fazer um café simples e perfeito e o hábito de apenas tomá-lo enquanto quente e novo. Sem foto, sem frescura, sem fazer daquilo um evento. É só um café. Respeitem o direito que ele tem de ser humilde.

Perdido Procuro: romance e felicidade até em cartaz de festa.

Perdido

Procuro: romance e felicidade até em cartaz de festa.

pensei que fosse redatora, mas sou prostituta Todo publicitário é uma prostituta. Claro que uns ganham mais pra isso, mas esses são os experientes, os sábios, os mestres do Kama Sutra da publicidade. Nós, os iniciantes e, principalmente, os redatores, somos fodidos e mal pagos. E não tem campanha que mude esse triste cenário em pleno século XXI.  Quero uma lei Maria da Penha para todas as redatoras desse país. Estou me sentindo agredida, violaram meus pudores conceituais, surraram meus anos de faculdade e estão batendo na cara da minha capacidade criativa e intelectual. Os clientes perderam a noção, se algum dia a tiveram. Não é porque você paga, que isso te dá o direito de fazer o que quer. Chego até a pensar que, para ver minhas ideias circulando por aí, vou ter que pagar para quem me contratou. Cada vez que me pedem (le-se mandam) para colocar alguma coisa no meu texto, eu me sinto estuprada. E pelo cu. Vou falar de novo: isso não é uma alteração no meu texto, é um taco de baseball no meu ânus. E dói. Dói pra caralho. Nunca pensei que um e-mail precisasse vir com vaselina, KY, óleo de cozinha, qualquer coisa que lubrifique e diminua essa agressão à pureza e inocência do meu texto. Mas tudo bem, o cliente quer, vamos colocar. Só um pouquinho, só o começo, nem vai doer, você não vai sentir nada, pronto, olha, acabou, liberamos. Não, não passou. Eu não gozei da minha criatividade, não vou parir sua ideia. Então, aí vai: querido cliente, IT’S A PAIN IN MY ASS. Você me pagou pra fazer o que eu faço, não o que você quer. Compre meu serviço, mas não compra minha dignidade. Está ficando feio. Está se tornando um crime. E ninguém faz nada. Ninguém se preocupa com a minha amiga redatora sofrendo um AVC quando trocam o título do anúncio ou “dourado” por “amarelo cintilante.” Tem uma DST correndo no mercado e as pessoas não estão se prevenindo contra isso, porque é mais fácil transar logo sem camisinha do que argumentar que é mais saudável usá-la. Para o bem de ambas as partes. Mas não. Vamos sem preservativo mesmo, é mais rápido, dá menos trabalho. No futuro a gente vê como fica. Estou na UTI da minha profissão, mas eu preciso ganhar dinheiro. Então, não me internem. Agora, se me dão licença, vou ali fumar um cigarro que ficar em pé nunca foi tão aliviante pra um cu que acabou de sofrer um estupro criativo.

pensei que fosse redatora, mas sou prostituta

Todo publicitário é uma prostituta. Claro que uns ganham mais pra isso, mas esses são os experientes, os sábios, os mestres do Kama Sutra da publicidade. Nós, os iniciantes e, principalmente, os redatores, somos fodidos e mal pagos. E não tem campanha que mude esse triste cenário em pleno século XXI. 

Quero uma lei Maria da Penha para todas as redatoras desse país. Estou me sentindo agredida, violaram meus pudores conceituais, surraram meus anos de faculdade e estão batendo na cara da minha capacidade criativa e intelectual. Os clientes perderam a noção, se algum dia a tiveram. Não é porque você paga, que isso te dá o direito de fazer o que quer. Chego até a pensar que, para ver minhas ideias circulando por aí, vou ter que pagar para quem me contratou. Cada vez que me pedem (le-se mandam) para colocar alguma coisa no meu texto, eu me sinto estuprada. E pelo cu. Vou falar de novo: isso não é uma alteração no meu texto, é um taco de baseball no meu ânus. E dói. Dói pra caralho. Nunca pensei que um e-mail precisasse vir com vaselina, KY, óleo de cozinha, qualquer coisa que lubrifique e diminua essa agressão à pureza e inocência do meu texto. Mas tudo bem, o cliente quer, vamos colocar. Só um pouquinho, só o começo, nem vai doer, você não vai sentir nada, pronto, olha, acabou, liberamos. Não, não passou. Eu não gozei da minha criatividade, não vou parir sua ideia.

Então, aí vai: querido cliente, IT’S A PAIN IN MY ASS. Você me pagou pra fazer o que eu faço, não o que você quer. Compre meu serviço, mas não compra minha dignidade. Está ficando feio. Está se tornando um crime. E ninguém faz nada. Ninguém se preocupa com a minha amiga redatora sofrendo um AVC quando trocam o título do anúncio ou “dourado” por “amarelo cintilante.” Tem uma DST correndo no mercado e as pessoas não estão se prevenindo contra isso, porque é mais fácil transar logo sem camisinha do que argumentar que é mais saudável usá-la. Para o bem de ambas as partes. Mas não. Vamos sem preservativo mesmo, é mais rápido, dá menos trabalho. No futuro a gente vê como fica.

Estou na UTI da minha profissão, mas eu preciso ganhar dinheiro. Então, não me internem. Agora, se me dão licença, vou ali fumar um cigarro que ficar em pé nunca foi tão aliviante pra um cu que acabou de sofrer um estupro criativo.

diagnóstico, prognóstico e tratamento Amanhã completo 15 dias de tratamento, e como qualquer paciente, quero me ver livre desse câncer encarnado no meu corpo e que ainda corre cada centímetro de veia que carrego. Venho tratando dessa fase como uma doença. Às vezes é mais fácil lidar, às vezes me sinto vulnerável, e quando isso acontece, descubro que sou um pouco mais forte do que a última vez que gripei. O problema está em gripar toda vez que saio na chuva. A verdade é que toda vez que isso acontece, tento me convencer que não valeu a pena me molhar, mesmo sabendo que, na próxima oportunidade, quero deitar e rolar na chuva de novo.  O silêncio me ajuda a refletir. De vez em quando mergulho em nostalgia e fico repassando os sintomas dessa doença. É como voltar cinco minutos antes da febre e lembrar o que eu fazia antes de começar a me sentir mal. Fico meditando sobre a importância dada mas não merecida e contando todas as minhas culpas como se eu fosse uma marginal. Fico tentando encontrar o lugar onde errei e todas as ferramentas que utilizei pra construir mais um “não deu certo.” É uma tortura viciante. Esse mesmo silêncio me força a um estado de conformidade para aceitar que, quando um não quer, dois não conversam. Ou quando não há o que falar. Ou quando não há interesse. Ou quando não tem porque. O silêncio, mudo, cortante e perturbador é a única resposta crua e verdadeira de que, agora, é hora de conformar. O mesmo silêncio que me bate, também me conforta.  A noite dói mais. Abrir a porta de casa transformou-se num hábito o qual eu queria não ter. Dói tomar banho, deitar na cama, ver televisão. As almofadas são desconfortáveis e não há posição para dormir bem. Meu parque de diversão se tornou um imenso e vazio campo de concentração em que vagam as lembranças, a ausência e a saudade. E como numa última tentativa de vencer, ao perceber que atinjo o mais profundo da tristeza e não há mais caminho para baixo, tenho que subir, lutar, tratar, não me deixar vencer por esse câncer. A vida não acabou. O tempo não parou. O tratamento existe. E não importa quantas doses de remédio eu tome ou quantas orações eu faça, não escolhi ficar doente, mas eu escolhi me curar, e quer saber? Vou indo muito bem. E sabendo eu que não mata porque eu não morri antes, não vou morrer agora. Laura Santos

diagnóstico, prognóstico e tratamento

Amanhã completo 15 dias de tratamento, e como qualquer paciente, quero me ver livre desse câncer encarnado no meu corpo e que ainda corre cada centímetro de veia que carrego. Venho tratando dessa fase como uma doença. Às vezes é mais fácil lidar, às vezes me sinto vulnerável, e quando isso acontece, descubro que sou um pouco mais forte do que a última vez que gripei. O problema está em gripar toda vez que saio na chuva. A verdade é que toda vez que isso acontece, tento me convencer que não valeu a pena me molhar, mesmo sabendo que, na próxima oportunidade, quero deitar e rolar na chuva de novo. 

O silêncio me ajuda a refletir. De vez em quando mergulho em nostalgia e fico repassando os sintomas dessa doença. É como voltar cinco minutos antes da febre e lembrar o que eu fazia antes de começar a me sentir mal. Fico meditando sobre a importância dada mas não merecida e contando todas as minhas culpas como se eu fosse uma marginal. Fico tentando encontrar o lugar onde errei e todas as ferramentas que utilizei pra construir mais um “não deu certo.” É uma tortura viciante. Esse mesmo silêncio me força a um estado de conformidade para aceitar que, quando um não quer, dois não conversam. Ou quando não há o que falar. Ou quando não há interesse. Ou quando não tem porque. O silêncio, mudo, cortante e perturbador é a única resposta crua e verdadeira de que, agora, é hora de conformar. O mesmo silêncio que me bate, também me conforta. 

A noite dói mais. Abrir a porta de casa transformou-se num hábito o qual eu queria não ter. Dói tomar banho, deitar na cama, ver televisão. As almofadas são desconfortáveis e não há posição para dormir bem. Meu parque de diversão se tornou um imenso e vazio campo de concentração em que vagam as lembranças, a ausência e a saudade. E como numa última tentativa de vencer, ao perceber que atinjo o mais profundo da tristeza e não há mais caminho para baixo, tenho que subir, lutar, tratar, não me deixar vencer por esse câncer.

A vida não acabou. O tempo não parou. O tratamento existe. E não importa quantas doses de remédio eu tome ou quantas orações eu faça, não escolhi ficar doente, mas eu escolhi me curar, e quer saber? Vou indo muito bem. E sabendo eu que não mata porque eu não morri antes, não vou morrer agora.

Laura Santos

Carta para um desconhecido Querido desconhecido, Já faz algum tempo desde que nos desconhecemos e agora eu começo a lidar com a ausência da saudade. Sabe, eu tinha tantas coisas para dizer, mas acho que elas ficaram no passado, junto com as coisas que também foram ditas. E agora já é meio tarde para tentar explicar ou ouvir alguma explicação. Eu achava que te conhecia tão bem. Sabia das suas preferências, o que te fazia sorrir, quando te achar, como te agradar, mas a convivência e o tempo se encarregaram de nos tornar duas pessoas desconhecidas que não sabiam como dar tom a um “bom dia” qualquer. O “boa noite” já passava em branco. Aos poucos, fomos nos tornando tão comuns, tão óbvios e tão mornos que nos perdemos um do outro e acabamos por ter que nos encontrar. Andei pensando que entendi não pelo que aproxima, mas pelo que afasta, como a distância, o silêncio e a ausência. Fiz dessas pequenas falhas oportunidades para reflexão de uma vida que sempre me pareceu tão agradável e, hoje, me soa patética, vazia e sem motivo de ser. Eu queria te escrever uma carta bem bonita, mas aceite que agora quero guardar meus enfeites pra mim, que é pra tentar cobrir os defeitos de um coração que você deixou judiado. Fique com o que foi bonito, com o que você teve, com o que você puder se lembrar, se for relevante. Não agradecerei, pois não há o que agradecer, não pedirei desculpas, pois não há o que desculpar. E não se preocupe em me desejar felicidades, eu serei feliz assim mesmo. Afinal, você se tornou um desconhecido. Ou, quem sabe, agora e finalmente, você esteja se revelando. Até um futuro do qual você não faz parte, Eu.

Carta para um desconhecido

Querido desconhecido,

Já faz algum tempo desde que nos desconhecemos e agora eu começo a lidar com a ausência da saudade. Sabe, eu tinha tantas coisas para dizer, mas acho que elas ficaram no passado, junto com as coisas que também foram ditas. E agora já é meio tarde para tentar explicar ou ouvir alguma explicação.

Eu achava que te conhecia tão bem. Sabia das suas preferências, o que te fazia sorrir, quando te achar, como te agradar, mas a convivência e o tempo se encarregaram de nos tornar duas pessoas desconhecidas que não sabiam como dar tom a um “bom dia” qualquer. O “boa noite” já passava em branco. Aos poucos, fomos nos tornando tão comuns, tão óbvios e tão mornos que nos perdemos um do outro e acabamos por ter que nos encontrar. Andei pensando que entendi não pelo que aproxima, mas pelo que afasta, como a distância, o silêncio e a ausência. Fiz dessas pequenas falhas oportunidades para reflexão de uma vida que sempre me pareceu tão agradável e, hoje, me soa patética, vazia e sem motivo de ser.

Eu queria te escrever uma carta bem bonita, mas aceite que agora quero guardar meus enfeites pra mim, que é pra tentar cobrir os defeitos de um coração que você deixou judiado. Fique com o que foi bonito, com o que você teve, com o que você puder se lembrar, se for relevante. Não agradecerei, pois não há o que agradecer, não pedirei desculpas, pois não há o que desculpar. E não se preocupe em me desejar felicidades, eu serei feliz assim mesmo. Afinal, você se tornou um desconhecido. Ou, quem sabe, agora e finalmente, você esteja se revelando.

Até um futuro do qual você não faz parte,

Eu.

O que você faria E se hoje fosse seu último dia, o que você faria? Se trancaria num quarto, se agarraria à mão de Deus e rezaria? Se amanhã fosse apenas um ideia que o fim concebeu, o que você faria? Ligava para os amigos, reuniria os inimigos e faria as pazes com quem nem chegou a brigar só pela sensação de ter feito algo bom? Gastaria com roupas, olharia os álbuns de fotografia e checaria o e-mail procurando por algum consolo? Meu amor, o que você faria? Se o hoje não passasse da 0 hora e o minuto seguinte virasse pó das lembranças do que fomos e do que fizemos. Terminaria lendo um livro, fumando um cigarro, trepando, comendo, dormindo, cantando, ouvindo, falando, reclamando, agradecendo, pedindo, dando, lembrando, esquecendo, sendo, deixando de ser, amando, morrendo, desejando nascer? Me diz o que você faria se soubesse que o mundo fosse acabar e, junto com ele, toda miséria humana, o instinto dos animais. Se hoje fosse seu último dia, o que você faria? Laura Santos 

O que você faria

E se hoje fosse seu último dia, o que você faria? Se trancaria num quarto, se agarraria à mão de Deus e rezaria? Se amanhã fosse apenas um ideia que o fim concebeu, o que você faria? Ligava para os amigos, reuniria os inimigos e faria as pazes com quem nem chegou a brigar só pela sensação de ter feito algo bom? Gastaria com roupas, olharia os álbuns de fotografia e checaria o e-mail procurando por algum consolo? Meu amor, o que você faria? Se o hoje não passasse da 0 hora e o minuto seguinte virasse pó das lembranças do que fomos e do que fizemos. Terminaria lendo um livro, fumando um cigarro, trepando, comendo, dormindo, cantando, ouvindo, falando, reclamando, agradecendo, pedindo, dando, lembrando, esquecendo, sendo, deixando de ser, amando, morrendo, desejando nascer? Me diz o que você faria se soubesse que o mundo fosse acabar e, junto com ele, toda miséria humana, o instinto dos animais. Se hoje fosse seu último dia, o que você faria?

Laura Santos 

Uma singela homenagem “Porque eu sou do tamanho do que vejo. E não do tamanho da minha altura.” Fernando Pessoa Foto by Nika Fadul

Uma singela homenagem

“Porque eu sou do tamanho do que vejo.

E não do tamanho da minha altura.”

Fernando Pessoa

Foto by Nika Fadul