Perdido Procuro: romance e felicidade até em cartaz de festa.

Perdido

Procuro: romance e felicidade até em cartaz de festa.

pensei que fosse redatora, mas sou prostituta Todo publicitário é uma prostituta. Claro que uns ganham mais pra isso, mas esses são os experientes, os sábios, os mestres do Kama Sutra da publicidade. Nós, os iniciantes e, principalmente, os redatores, somos fodidos e mal pagos. E não tem campanha que mude esse triste cenário em pleno século XXI.  Quero uma lei Maria da Penha para todas as redatoras desse país. Estou me sentindo agredida, violaram meus pudores conceituais, surraram meus anos de faculdade e estão batendo na cara da minha capacidade criativa e intelectual. Os clientes perderam a noção, se algum dia a tiveram. Não é porque você paga, que isso te dá o direito de fazer o que quer. Chego até a pensar que, para ver minhas ideias circulando por aí, vou ter que pagar para quem me contratou. Cada vez que me pedem (le-se mandam) para colocar alguma coisa no meu texto, eu me sinto estuprada. E pelo cu. Vou falar de novo: isso não é uma alteração no meu texto, é um taco de baseball no meu ânus. E dói. Dói pra caralho. Nunca pensei que um e-mail precisasse vir com vaselina, KY, óleo de cozinha, qualquer coisa que lubrifique e diminua essa agressão à pureza e inocência do meu texto. Mas tudo bem, o cliente quer, vamos colocar. Só um pouquinho, só o começo, nem vai doer, você não vai sentir nada, pronto, olha, acabou, liberamos. Não, não passou. Eu não gozei da minha criatividade, não vou parir sua ideia. Então, aí vai: querido cliente, IT’S A PAIN IN MY ASS. Você me pagou pra fazer o que eu faço, não o que você quer. Compre meu serviço, mas não compra minha dignidade. Está ficando feio. Está se tornando um crime. E ninguém faz nada. Ninguém se preocupa com a minha amiga redatora sofrendo um AVC quando trocam o título do anúncio ou “dourado” por “amarelo cintilante.” Tem uma DST correndo no mercado e as pessoas não estão se prevenindo contra isso, porque é mais fácil transar logo sem camisinha do que argumentar que é mais saudável usá-la. Para o bem de ambas as partes. Mas não. Vamos sem preservativo mesmo, é mais rápido, dá menos trabalho. No futuro a gente vê como fica. Estou na UTI da minha profissão, mas eu preciso ganhar dinheiro. Então, não me internem. Agora, se me dão licença, vou ali fumar um cigarro que ficar em pé nunca foi tão aliviante pra um cu que acabou de sofrer um estupro criativo.

pensei que fosse redatora, mas sou prostituta

Todo publicitário é uma prostituta. Claro que uns ganham mais pra isso, mas esses são os experientes, os sábios, os mestres do Kama Sutra da publicidade. Nós, os iniciantes e, principalmente, os redatores, somos fodidos e mal pagos. E não tem campanha que mude esse triste cenário em pleno século XXI. 

Quero uma lei Maria da Penha para todas as redatoras desse país. Estou me sentindo agredida, violaram meus pudores conceituais, surraram meus anos de faculdade e estão batendo na cara da minha capacidade criativa e intelectual. Os clientes perderam a noção, se algum dia a tiveram. Não é porque você paga, que isso te dá o direito de fazer o que quer. Chego até a pensar que, para ver minhas ideias circulando por aí, vou ter que pagar para quem me contratou. Cada vez que me pedem (le-se mandam) para colocar alguma coisa no meu texto, eu me sinto estuprada. E pelo cu. Vou falar de novo: isso não é uma alteração no meu texto, é um taco de baseball no meu ânus. E dói. Dói pra caralho. Nunca pensei que um e-mail precisasse vir com vaselina, KY, óleo de cozinha, qualquer coisa que lubrifique e diminua essa agressão à pureza e inocência do meu texto. Mas tudo bem, o cliente quer, vamos colocar. Só um pouquinho, só o começo, nem vai doer, você não vai sentir nada, pronto, olha, acabou, liberamos. Não, não passou. Eu não gozei da minha criatividade, não vou parir sua ideia.

Então, aí vai: querido cliente, IT’S A PAIN IN MY ASS. Você me pagou pra fazer o que eu faço, não o que você quer. Compre meu serviço, mas não compra minha dignidade. Está ficando feio. Está se tornando um crime. E ninguém faz nada. Ninguém se preocupa com a minha amiga redatora sofrendo um AVC quando trocam o título do anúncio ou “dourado” por “amarelo cintilante.” Tem uma DST correndo no mercado e as pessoas não estão se prevenindo contra isso, porque é mais fácil transar logo sem camisinha do que argumentar que é mais saudável usá-la. Para o bem de ambas as partes. Mas não. Vamos sem preservativo mesmo, é mais rápido, dá menos trabalho. No futuro a gente vê como fica.

Estou na UTI da minha profissão, mas eu preciso ganhar dinheiro. Então, não me internem. Agora, se me dão licença, vou ali fumar um cigarro que ficar em pé nunca foi tão aliviante pra um cu que acabou de sofrer um estupro criativo.

diagnóstico, prognóstico e tratamento Amanhã completo 15 dias de tratamento, e como qualquer paciente, quero me ver livre desse câncer encarnado no meu corpo e que ainda corre cada centímetro de veia que carrego. Venho tratando dessa fase como uma doença. Às vezes é mais fácil lidar, às vezes me sinto vulnerável, e quando isso acontece, descubro que sou um pouco mais forte do que a última vez que gripei. O problema está em gripar toda vez que saio na chuva. A verdade é que toda vez que isso acontece, tento me convencer que não valeu a pena me molhar, mesmo sabendo que, na próxima oportunidade, quero deitar e rolar na chuva de novo.  O silêncio me ajuda a refletir. De vez em quando mergulho em nostalgia e fico repassando os sintomas dessa doença. É como voltar cinco minutos antes da febre e lembrar o que eu fazia antes de começar a me sentir mal. Fico meditando sobre a importância dada mas não merecida e contando todas as minhas culpas como se eu fosse uma marginal. Fico tentando encontrar o lugar onde errei e todas as ferramentas que utilizei pra construir mais um “não deu certo.” É uma tortura viciante. Esse mesmo silêncio me força a um estado de conformidade para aceitar que, quando um não quer, dois não conversam. Ou quando não há o que falar. Ou quando não há interesse. Ou quando não tem porque. O silêncio, mudo, cortante e perturbador é a única resposta crua e verdadeira de que, agora, é hora de conformar. O mesmo silêncio que me bate, também me conforta.  A noite dói mais. Abrir a porta de casa transformou-se num hábito o qual eu queria não ter. Dói tomar banho, deitar na cama, ver televisão. As almofadas são desconfortáveis e não há posição para dormir bem. Meu parque de diversão se tornou um imenso e vazio campo de concentração em que vagam as lembranças, a ausência e a saudade. E como numa última tentativa de vencer, ao perceber que atinjo o mais profundo da tristeza e não há mais caminho para baixo, tenho que subir, lutar, tratar, não me deixar vencer por esse câncer. A vida não acabou. O tempo não parou. O tratamento existe. E não importa quantas doses de remédio eu tome ou quantas orações eu faça, não escolhi ficar doente, mas eu escolhi me curar, e quer saber? Vou indo muito bem. E sabendo eu que não mata porque eu não morri antes, não vou morrer agora. Laura Santos

diagnóstico, prognóstico e tratamento

Amanhã completo 15 dias de tratamento, e como qualquer paciente, quero me ver livre desse câncer encarnado no meu corpo e que ainda corre cada centímetro de veia que carrego. Venho tratando dessa fase como uma doença. Às vezes é mais fácil lidar, às vezes me sinto vulnerável, e quando isso acontece, descubro que sou um pouco mais forte do que a última vez que gripei. O problema está em gripar toda vez que saio na chuva. A verdade é que toda vez que isso acontece, tento me convencer que não valeu a pena me molhar, mesmo sabendo que, na próxima oportunidade, quero deitar e rolar na chuva de novo. 

O silêncio me ajuda a refletir. De vez em quando mergulho em nostalgia e fico repassando os sintomas dessa doença. É como voltar cinco minutos antes da febre e lembrar o que eu fazia antes de começar a me sentir mal. Fico meditando sobre a importância dada mas não merecida e contando todas as minhas culpas como se eu fosse uma marginal. Fico tentando encontrar o lugar onde errei e todas as ferramentas que utilizei pra construir mais um “não deu certo.” É uma tortura viciante. Esse mesmo silêncio me força a um estado de conformidade para aceitar que, quando um não quer, dois não conversam. Ou quando não há o que falar. Ou quando não há interesse. Ou quando não tem porque. O silêncio, mudo, cortante e perturbador é a única resposta crua e verdadeira de que, agora, é hora de conformar. O mesmo silêncio que me bate, também me conforta. 

A noite dói mais. Abrir a porta de casa transformou-se num hábito o qual eu queria não ter. Dói tomar banho, deitar na cama, ver televisão. As almofadas são desconfortáveis e não há posição para dormir bem. Meu parque de diversão se tornou um imenso e vazio campo de concentração em que vagam as lembranças, a ausência e a saudade. E como numa última tentativa de vencer, ao perceber que atinjo o mais profundo da tristeza e não há mais caminho para baixo, tenho que subir, lutar, tratar, não me deixar vencer por esse câncer.

A vida não acabou. O tempo não parou. O tratamento existe. E não importa quantas doses de remédio eu tome ou quantas orações eu faça, não escolhi ficar doente, mas eu escolhi me curar, e quer saber? Vou indo muito bem. E sabendo eu que não mata porque eu não morri antes, não vou morrer agora.

Laura Santos

Carta para um desconhecido Querido desconhecido, Já faz algum tempo desde que nos desconhecemos e agora eu começo a lidar com a ausência da saudade. Sabe, eu tinha tantas coisas para dizer, mas acho que elas ficaram no passado, junto com as coisas que também foram ditas. E agora já é meio tarde para tentar explicar ou ouvir alguma explicação. Eu achava que te conhecia tão bem. Sabia das suas preferências, o que te fazia sorrir, quando te achar, como te agradar, mas a convivência e o tempo se encarregaram de nos tornar duas pessoas desconhecidas que não sabiam como dar tom a um “bom dia” qualquer. O “boa noite” já passava em branco. Aos poucos, fomos nos tornando tão comuns, tão óbvios e tão mornos que nos perdemos um do outro e acabamos por ter que nos encontrar. Andei pensando que entendi não pelo que aproxima, mas pelo que afasta, como a distância, o silêncio e a ausência. Fiz dessas pequenas falhas oportunidades para reflexão de uma vida que sempre me pareceu tão agradável e, hoje, me soa patética, vazia e sem motivo de ser. Eu queria te escrever uma carta bem bonita, mas aceite que agora quero guardar meus enfeites pra mim, que é pra tentar cobrir os defeitos de um coração que você deixou judiado. Fique com o que foi bonito, com o que você teve, com o que você puder se lembrar, se for relevante. Não agradecerei, pois não há o que agradecer, não pedirei desculpas, pois não há o que desculpar. E não se preocupe em me desejar felicidades, eu serei feliz assim mesmo. Afinal, você se tornou um desconhecido. Ou, quem sabe, agora e finalmente, você esteja se revelando. Até um futuro do qual você não faz parte, Eu.

Carta para um desconhecido

Querido desconhecido,

Já faz algum tempo desde que nos desconhecemos e agora eu começo a lidar com a ausência da saudade. Sabe, eu tinha tantas coisas para dizer, mas acho que elas ficaram no passado, junto com as coisas que também foram ditas. E agora já é meio tarde para tentar explicar ou ouvir alguma explicação.

Eu achava que te conhecia tão bem. Sabia das suas preferências, o que te fazia sorrir, quando te achar, como te agradar, mas a convivência e o tempo se encarregaram de nos tornar duas pessoas desconhecidas que não sabiam como dar tom a um “bom dia” qualquer. O “boa noite” já passava em branco. Aos poucos, fomos nos tornando tão comuns, tão óbvios e tão mornos que nos perdemos um do outro e acabamos por ter que nos encontrar. Andei pensando que entendi não pelo que aproxima, mas pelo que afasta, como a distância, o silêncio e a ausência. Fiz dessas pequenas falhas oportunidades para reflexão de uma vida que sempre me pareceu tão agradável e, hoje, me soa patética, vazia e sem motivo de ser.

Eu queria te escrever uma carta bem bonita, mas aceite que agora quero guardar meus enfeites pra mim, que é pra tentar cobrir os defeitos de um coração que você deixou judiado. Fique com o que foi bonito, com o que você teve, com o que você puder se lembrar, se for relevante. Não agradecerei, pois não há o que agradecer, não pedirei desculpas, pois não há o que desculpar. E não se preocupe em me desejar felicidades, eu serei feliz assim mesmo. Afinal, você se tornou um desconhecido. Ou, quem sabe, agora e finalmente, você esteja se revelando.

Até um futuro do qual você não faz parte,

Eu.

O que você faria E se hoje fosse seu último dia, o que você faria? Se trancaria num quarto, se agarraria à mão de Deus e rezaria? Se amanhã fosse apenas um ideia que o fim concebeu, o que você faria? Ligava para os amigos, reuniria os inimigos e faria as pazes com quem nem chegou a brigar só pela sensação de ter feito algo bom? Gastaria com roupas, olharia os álbuns de fotografia e checaria o e-mail procurando por algum consolo? Meu amor, o que você faria? Se o hoje não passasse da 0 hora e o minuto seguinte virasse pó das lembranças do que fomos e do que fizemos. Terminaria lendo um livro, fumando um cigarro, trepando, comendo, dormindo, cantando, ouvindo, falando, reclamando, agradecendo, pedindo, dando, lembrando, esquecendo, sendo, deixando de ser, amando, morrendo, desejando nascer? Me diz o que você faria se soubesse que o mundo fosse acabar e, junto com ele, toda miséria humana, o instinto dos animais. Se hoje fosse seu último dia, o que você faria? Laura Santos 

O que você faria

E se hoje fosse seu último dia, o que você faria? Se trancaria num quarto, se agarraria à mão de Deus e rezaria? Se amanhã fosse apenas um ideia que o fim concebeu, o que você faria? Ligava para os amigos, reuniria os inimigos e faria as pazes com quem nem chegou a brigar só pela sensação de ter feito algo bom? Gastaria com roupas, olharia os álbuns de fotografia e checaria o e-mail procurando por algum consolo? Meu amor, o que você faria? Se o hoje não passasse da 0 hora e o minuto seguinte virasse pó das lembranças do que fomos e do que fizemos. Terminaria lendo um livro, fumando um cigarro, trepando, comendo, dormindo, cantando, ouvindo, falando, reclamando, agradecendo, pedindo, dando, lembrando, esquecendo, sendo, deixando de ser, amando, morrendo, desejando nascer? Me diz o que você faria se soubesse que o mundo fosse acabar e, junto com ele, toda miséria humana, o instinto dos animais. Se hoje fosse seu último dia, o que você faria?

Laura Santos 

Uma singela homenagem “Porque eu sou do tamanho do que vejo. E não do tamanho da minha altura.” Fernando Pessoa Foto by Nika Fadul

Uma singela homenagem

“Porque eu sou do tamanho do que vejo.

E não do tamanho da minha altura.”

Fernando Pessoa

Foto by Nika Fadul

Guarde o dia de hoje Eu nem me lembro ao certo como tudo começou. Na verdade, eu ainda penso se posso dizer que houve um começo. Pulando a introdução, aos poucos fiz desse convívio uma descarga pro meu tédio. Não tão diário que eu não pudesse controlar, não tão frequente que eu não pudesse sentir falta. Me faça rir e não precisa de mais motivos pra me agradar. Mas passou de agrado. Eu começava a colecionar lembranças que existiam só pra mim, pois elas eram passageiras, pedaços de matéria e o mais difícil: sonhos e dúvidas. Um penhasco começa onde a estrada acaba e, nesse caso, minhas dúvidas começavam onde os sonhos terminavam. Eu via o que era real, os fatos como eles são, e nada mais cruel do que encarar uma realidade que você desejou não ter chegado tarde demais ou, quem sabe, chegou na na hora certa? Comecei a fazer disso um vício insistente, que não passava, não andava, não evoluia. Uma mania louca de querer por perto, sentir falta, inveja de quem estava do lado. Não saber onde termina uma amizade e começa uma paixão é uma das piores incertezas que alguém pode ter. Eu, que vivo confundido gastrite com fome e TPM com solidão, pensei, no auge da idade, que era perfeitamente fácil entender uma amizade sincera e constante com um amor que acontece platonicamente. Não sabia. Não conseguia explicar minha mania de, durante um período, conseguir acordar sorrindo, gostar da segunda-feira e não ter que medir palavras com medo de ofender ou contrariar a regra se isso ja era, por si, contrariar todas as regras de convívio, postura e respeito social. Ninguém queria saber como eu me sentia. Eu nem estava tão disposta a explicar. Ao contrário de sofrimento, todos os dias eu dormia mais sorridente, fui até mais mulher e passei a querer outros interesses. Enquanto isso, alimentava esperanças que nem eu mesma sabia que tinha. Do outro lado, com a mesma mão que dava, tirava. É como colocar bala na boca e não deixar chegar ao fim, o doce derreter, o mel acabar. É mostrar como pode ser bom e, por ser tão bom, não pode continuar. Se eu pudesse definir, seria algo entre misterioso e previsível, chato e fascinante, bom e detestável, esperto e tonto, amigo e amante.  Acho que uma bomba ia explodir e quem ia se ferir mais? Eu. Desse jeito, em virtude das circunstâncias e realidade, quero ter força e enterrar a granada, apagar vestígios dessa guerra sentimental e jogar bandeira branca. Quero continuar a caminhada do primeiro passo que já dei e me libertar dessa mania de querer o que não pode, sonhar a realidade de alguém e me conformar que confundir amizade com amor é apenas a forma que você interpreta as palavras que foram ditas no meio de tudo isso. Se você não sabe como desfazer um nó, não brinque com linhas. E para se queimar, não precisa brincar com fogo. Amar já dói o bastante. Laura Santos no fim da linha.

Guarde o dia de hoje

Eu nem me lembro ao certo como tudo começou. Na verdade, eu ainda penso se posso dizer que houve um começo. Pulando a introdução, aos poucos fiz desse convívio uma descarga pro meu tédio. Não tão diário que eu não pudesse controlar, não tão frequente que eu não pudesse sentir falta. Me faça rir e não precisa de mais motivos pra me agradar. Mas passou de agrado. Eu começava a colecionar lembranças que existiam só pra mim, pois elas eram passageiras, pedaços de matéria e o mais difícil: sonhos e dúvidas. Um penhasco começa onde a estrada acaba e, nesse caso, minhas dúvidas começavam onde os sonhos terminavam. Eu via o que era real, os fatos como eles são, e nada mais cruel do que encarar uma realidade que você desejou não ter chegado tarde demais ou, quem sabe, chegou na na hora certa? Comecei a fazer disso um vício insistente, que não passava, não andava, não evoluia. Uma mania louca de querer por perto, sentir falta, inveja de quem estava do lado. Não saber onde termina uma amizade e começa uma paixão é uma das piores incertezas que alguém pode ter. Eu, que vivo confundido gastrite com fome e TPM com solidão, pensei, no auge da idade, que era perfeitamente fácil entender uma amizade sincera e constante com um amor que acontece platonicamente. Não sabia. Não conseguia explicar minha mania de, durante um período, conseguir acordar sorrindo, gostar da segunda-feira e não ter que medir palavras com medo de ofender ou contrariar a regra se isso ja era, por si, contrariar todas as regras de convívio, postura e respeito social. Ninguém queria saber como eu me sentia. Eu nem estava tão disposta a explicar.

Ao contrário de sofrimento, todos os dias eu dormia mais sorridente, fui até mais mulher e passei a querer outros interesses. Enquanto isso, alimentava esperanças que nem eu mesma sabia que tinha. Do outro lado, com a mesma mão que dava, tirava. É como colocar bala na boca e não deixar chegar ao fim, o doce derreter, o mel acabar. É mostrar como pode ser bom e, por ser tão bom, não pode continuar. Se eu pudesse definir, seria algo entre misterioso e previsível, chato e fascinante, bom e detestável, esperto e tonto, amigo e amante. 

Acho que uma bomba ia explodir e quem ia se ferir mais? Eu. Desse jeito, em virtude das circunstâncias e realidade, quero ter força e enterrar a granada, apagar vestígios dessa guerra sentimental e jogar bandeira branca. Quero continuar a caminhada do primeiro passo que já dei e me libertar dessa mania de querer o que não pode, sonhar a realidade de alguém e me conformar que confundir amizade com amor é apenas a forma que você interpreta as palavras que foram ditas no meio de tudo isso.

Se você não sabe como desfazer um nó, não brinque com linhas. E para se queimar, não precisa brincar com fogo. Amar já dói o bastante.

Laura Santos no fim da linha.

Não deixa o sol morrer Algum tempo depois você se acostuma com o sofá vazio, a televisão desligada e as plantas morrendo na janela. Acostuma a não ver as roupas misturadas no arame, nem os pares de sapatos avulsos na sala. Na rua, os vizinhos já não perguntam mais e você também se acostuma a não receber mensagens ou querer ficar olhando as fotos que colecionou. Você acostuma a não sonhar nem a fazer planos quando sabe que eles nunca serão realidade. As horas passam, o dia vai embora sem que você acorde e dê bom dia ou, antes de dormir, não ter aquele ou aquela para dar boa noite. Escutar música, suspirar, sorrir, coisas que antes faziam sentido agora são apenas atividades que você executa mecanicamente. Não fazem diferença. Nesse instante você percebe que o tempo passou e você é exatamente o mesmo de antes. Esquecer, não esquece, passar, não passa, mas você apenas acostumou-se a não ter mais. Nem por isso, talvez, querer menos. Foi mais fácil assim. Laura Santos

Não deixa o sol morrer

Algum tempo depois você se acostuma com o sofá vazio, a televisão desligada e as plantas morrendo na janela. Acostuma a não ver as roupas misturadas no arame, nem os pares de sapatos avulsos na sala. Na rua, os vizinhos já não perguntam mais e você também se acostuma a não receber mensagens ou querer ficar olhando as fotos que colecionou. Você acostuma a não sonhar nem a fazer planos quando sabe que eles nunca serão realidade. As horas passam, o dia vai embora sem que você acorde e dê bom dia ou, antes de dormir, não ter aquele ou aquela para dar boa noite. Escutar música, suspirar, sorrir, coisas que antes faziam sentido agora são apenas atividades que você executa mecanicamente. Não fazem diferença. Nesse instante você percebe que o tempo passou e você é exatamente o mesmo de antes. Esquecer, não esquece, passar, não passa, mas você apenas acostumou-se a não ter mais. Nem por isso, talvez, querer menos.

Foi mais fácil assim.

Laura Santos

this too shall pass As long as still love, still life. Laura Santos

this too shall pass

As long as still love, still life.

Laura Santos